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11 de março de 2015

Texto: Música no asfalto- Por: Edu Café


  Meia hora depois de deixar meu irmão para almoçar e passar a tarde com amigos na casa da colega, recebi um recado seu, no celular:


  “Flávia, vem me buscar”.


  Eu não podia atendê-lo de imediato, fazia compras no supermercado. Depois de acabar, quando estava a alguns quarteirões de onde ele se encontrava, estanquei numa fila de carros aborrecidos. O sinal estava verde. Amarelou-se, e passou ao vermelho. Voltou ao verde. Os automóveis, indóceis, resmungavam num coro de buzinas. De novo o fugaz amarelo, de novo o demorado vermelho. E a cena foi se repetindo, num ciclo torturante. 


  O celular tocou na minha bolsa, exasperando-me com uma melodia chata, que havia sido escolhida por Guilherme. Atendi, já prevendo sua insistência surda.


  – Cadê você, Flávia? Não vem não?


  – Gui, eu tô presa no sinal, ninguém aqui sai do lugar.


  – Mas que saco, Flávia, vem logo!


  Como se eu pudesse levantar voo, num carro de filme americano. A impaciência de meu irmão somava-se à dos carros, e a balbúrdia começava a latejar na minha cabeça. Dispensei-o, gritando que eu não era um deus para me teletransportar para onde bem quisesse, com onipresença em potencial.


  A essa altura, motoristas saíam de seus veículos e soltavam impropérios para os supostos idiotas à sua frente. Começavam discussões. Alguns acendiam cigarros e compartilhavam a curiosidade enfastiada, querendo desvendar o motivo de tanta demora. Os mais ousados resolviam caminhar para frente, procurando a solução do enigma, como sherloques do meio-dia. Outros, mais tímidos, nem baixavam os vidros, com medo dos trombadinhas.


  Após algum tempo, veio a explicação: um pedreiro, que trabalhava na construção de um prédio, despencara do décimo andar, no meio da rua. Em seu desequilíbrio, agarrou-se a outro, tentando evitar a queda, mas não conseguiu mais do que levá-lo consigo. O resultado foi que caíram, um em cada pista, vermelhos, e ninguém tinha nervos para pegá-los e colocá-los no passeio.


  Ao ouvir a inusitada história, só consegui pensar, “meu Deus, estou numa música do Chico!” Foi então que me invadiu uma incômoda ambiguidade. Por um lado, compaixão pelos emblemáticos e desafortunados trabalhadores. Por outro – e eu não sabia qual sentimento predominava – orgulho de me ver alçada a personagem de uma canção do meu idolatrado compositor.


  O celular voltou a rosnar. Rejeitei a ligação e pensei, “vou baixar um ringtone novo”.

30 de novembro de 2014

Texto: Um poço para sua beleza

  Ela quer desvelar sua alma à realidade etérea, sutil, no limite de qualquer substância; plantar, umedecendo a terra com sua fatia mais densa (água, de tão transparente, invisível), no fundo da distância exata, falando à semente como se aborda um infante, ondulando cantigas de embalar e seduzir, com a paciência deleitosa do lavrador temperado nos ciclos de noite e dia, impregnando cada palavra com a discreta força de um recomeço tingido de luta, conduzindo-se à dura beleza conquistada em meio a vacilos (ah, o tempo presto cobra o justo pedágio); ela quer se encontrar e verter o seu mais íntimo através do canal mais claro, que, rebelde a suas esperas, se faz opaco e rugoso; o poço em que se dobra a sua torrente, numa cachoeira a reluzir nuas verdades, não lhe parece acolher com a segurança de um chão que sustente e floresça, algas estranhas moldando-se em pedras rasas, ameaçando o equilíbrio de mergulhos parecendo interditos como escorregadias intempéries; as águas valentes caem, no entanto, o que era escasso transmudando em profundezas, plenitude de vida submersa que ela procurava quase às cegas, insciente da maravilha inscrita em suas próprias premonições; manancial abundante e vivo, entre curvas de troncos e raízes retomando a forma potente de um regato, renovado perenemente nas fontes da bela e sublime imagem; ela encontra o seu traço, descendo a colina sob as sombras de árvores altas e frondosas, ela escolhe enfim o seu poço, num mergulho se despe em delicadeza que a envolve na inesperada entrega.

Por: Edu Café

23 de julho de 2014

Texto: Ser Humano


Certa vez eu vi um filme chamado “A Invasão”, onde alienígenas assumiam o controle dos humanos, mantendo, contudo, as características pessoais, lembranças e laços. O que mudava? A violência, o ódio, o rancor... Todo o lado ruim do ser humano desaparecia, seria um mundo sem guerras, sem fome, sem tristeza. As emoções seriam totalmente controladas, quase nulas; o pensamento, antes algo divergente, se tornaria coletivo, todos viveriam pelo bem maior de todos, não haveria individualidade. 

6 de julho de 2014

Texto: Apenas Algumas Palavras


A leitura é como um remédio, todo mundo sabe que serve para curar, porém são poucos os que gostam da sua dose diária. É da leitura que vem a cultura, a variedade de vocábulos, a própria educação depende da leitura que não só informa como forma e capacita. José Saramago já alertava para o fato de estarmos nos transformando rapidamente na "sociedade dos grunhidos", e ainda Mario Vargas Llosa, escreveu que "quem não lê fala muito, mas diz pouco". Fiquei pensando que além da falta da proximidade, do cotidiano, da intimidade e prazer da leitura, o brasileiro tem antes a falta de seu próprio mundo. Mas, o que podemos esperar de uma sociedade que coloca o conhecimento como uma forma de poder? Nessa sociedade os estudantes são aqueles que menos têm acesso a livros, antes precisam fazer cópias daqueles poucos privilegiados que possuem livros originais, ficando assim o acesso à leitura para um grupo elitizado. 

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