Ela quer desvelar sua alma à realidade
etérea, sutil, no limite de qualquer substância; plantar, umedecendo a terra com sua fatia mais densa (água, de tão
transparente, invisível), no fundo da distância exata, falando à semente como
se aborda um infante, ondulando cantigas de embalar e seduzir, com a paciência
deleitosa do lavrador temperado nos ciclos de noite e dia, impregnando cada
palavra com a discreta força de um recomeço tingido de luta, conduzindo-se à
dura beleza conquistada em meio a vacilos (ah, o tempo presto cobra o justo
pedágio); ela quer se encontrar e verter o seu mais íntimo através do canal mais
claro, que, rebelde a suas esperas, se faz opaco e rugoso; o poço em que se
dobra a sua torrente, numa cachoeira a reluzir nuas verdades, não lhe parece
acolher com a segurança de um chão que sustente e floresça, algas estranhas
moldando-se em pedras rasas, ameaçando o equilíbrio de mergulhos parecendo
interditos como escorregadias intempéries; as águas valentes caem, no entanto,
o que era escasso transmudando em profundezas, plenitude de vida submersa que
ela procurava quase às cegas, insciente da maravilha inscrita em suas próprias
premonições; manancial abundante e vivo, entre curvas de troncos e raízes
retomando a forma potente de um regato, renovado perenemente nas fontes da bela
e sublime imagem; ela encontra o seu traço, descendo a colina sob as sombras de
árvores altas e frondosas, ela escolhe enfim o seu poço, num mergulho se despe
em delicadeza que a envolve na inesperada entrega.
Por: Edu Café
Por: Edu Café

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