Meia
hora depois de deixar meu irmão para almoçar e passar a tarde com amigos na
casa da colega, recebi um recado seu, no celular:
“Flávia,
vem me buscar”.
Eu
não podia atendê-lo de imediato, fazia compras no supermercado. Depois de
acabar, quando estava a alguns quarteirões de onde ele se encontrava, estanquei
numa fila de carros aborrecidos. O sinal estava verde. Amarelou-se, e passou ao
vermelho. Voltou ao verde. Os automóveis, indóceis, resmungavam num coro de
buzinas. De novo o fugaz amarelo, de novo o demorado vermelho. E a cena foi se
repetindo, num ciclo torturante.
O
celular tocou na minha bolsa, exasperando-me com uma melodia chata, que havia
sido escolhida por Guilherme. Atendi, já prevendo sua insistência surda.
–
Cadê você, Flávia? Não vem não?
–
Gui, eu tô presa no sinal, ninguém aqui sai do lugar.
–
Mas que saco, Flávia, vem logo!
Como
se eu pudesse levantar voo, num carro de filme americano. A impaciência de meu
irmão somava-se à dos carros, e a balbúrdia começava a latejar na minha cabeça.
Dispensei-o, gritando que eu não era um deus para me teletransportar para onde
bem quisesse, com onipresença em potencial.
A
essa altura, motoristas saíam de seus veículos e soltavam impropérios para os
supostos idiotas à sua frente. Começavam discussões. Alguns acendiam cigarros e
compartilhavam a curiosidade enfastiada, querendo desvendar o motivo de tanta
demora. Os mais ousados resolviam caminhar para frente, procurando a solução do
enigma, como sherloques do meio-dia.
Outros, mais tímidos, nem baixavam os vidros, com medo dos trombadinhas.
Após
algum tempo, veio a explicação: um pedreiro, que trabalhava na construção de um
prédio, despencara do décimo andar, no meio da rua. Em seu desequilíbrio,
agarrou-se a outro, tentando evitar a queda, mas não conseguiu mais do que
levá-lo consigo. O resultado foi que caíram, um em cada pista, vermelhos, e
ninguém tinha nervos para pegá-los e colocá-los no passeio.
Ao
ouvir a inusitada história, só consegui pensar, “meu Deus, estou numa música do
Chico!” Foi então que me invadiu uma incômoda ambiguidade. Por um lado,
compaixão pelos emblemáticos e desafortunados trabalhadores. Por outro – e eu
não sabia qual sentimento predominava – orgulho de me ver alçada a personagem
de uma canção do meu idolatrado compositor.

Oie! Vim visitar pela primeira vez e já me deparo com um texto lindo! Adorei!
ResponderExcluirBeijos,
Joi Cardoso
Estante Diagonal
Gente, que texto bacana!
ResponderExcluirDiferente de tudo o que eu já li.
Viva o Chico!
Beijoooos
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