Na manhã seguinte, aconteceu o que Plínio já esperava. Fabinha não lhe deu
atenção, não lhe dirigiu a palavra, fingiu que não o conhecia. Mas sentia o
olhar do garoto implacável sobre si, e respondia com soslaios maliciosos. Havia
algo de inebriante nesse segredo, e Plínio constatava a veracidade do velho
clichê segundo o qual o proibido tem mais sabor.
Os dias foram se passando nessa toada. Pela manhã, mal se conheciam. De
tarde, eram cada vez mais íntimos. E essa intimidade surgia em todos os sentidos.
Sabiam mais e mais da vida um do outro, conheciam cada gosto e preferência,
decodificavam cada gesto. Tocavam-se mais ousadamente. Não se passaram três
meses antes de Fabinha entregar-se totalmente ao doce assédio de Plínio. Os
amantes, absortos, olhavam-se deitados, acariciando o rosto um do outro.
Plínio, certo dia, após uma investida sem sucesso, confidenciou-se com um
amigo. Deu-se conta de que até então não tinha falado sobre o caso com ninguém.
Surpreendeu-se por ter sido tão fácil não dizer nada. O amigo demorou a
acreditar.
– Que isso, cara! A Fabinha?
Se não o conhecesse bem, pensaria que era invenção. Não havia ninguém para confirmar
a história. Mas não foi isso o que deixou o amigo cismado.
– Cara, por que você tá se sujeitando a isso? Não poder falar pra ninguém,
ter que mentir, esconder?
Plínio, depois de considerar a pergunta, olhou-o e respondeu com convicção:
– Porque eu tô transando com ela!
O amigo reagiu como alguém que se sente estúpido por não ter sacado uma
resposta tão óbvia.
Num fim de semana, haveria uma festa na casa de um colega mútuo.
Praticamente todos da sala estariam presentes. Plínio acordou abatido, já
prevendo que não poderia ficar com Fabinha. Pensou em nem ir. Mas foi. Chegando
lá, viu um garoto mais velho conversando com ela. Tomou algumas cervejas para
se soltar e, na quarta, sentiu uma pontada no meio do peito. Uma sensação
estranha, desconhecida, produzia-se em seu estômago. Fabinha acabava de beijar
outro cara.
Da quarta, Plínio passou à décima cerveja em questão de minutos. Da décima,
passou à décima-primeira e assim por diante. A música e as vozes se
embaralhavam na sua cabeça. Não registrava nada do que lhe falavam. Lutava para
não perder o equilíbrio. Quando foi ao banheiro pela enésima vez, ajoelhou-se e
soltou tudo o que guardava dentro de si. Ou quase tudo. Saiu, andou poucos
metros e sentou-se no chão, cambaleante. Mal ouviu um colega que se aproximava.
– Você tá legal aí, cara?
A pontada no peito e a sensação estranha no estômago não o abandonaram. Três
dias se passaram sem que ligasse para Fabinha, sem que Fabinha ligasse para
ele. Na quarta-feira, Plínio atendeu o telefone.
– Oi – disse a garota, numa voz macia.
– O que você quer? – o tom de Plínio era ríspido.
– Desde sexta que a gente não se fala.
– É.
– Esqueceu de mim?
Plínio sorriu, apreciando a ironia.
– Eu é que esqueci de você?
– Vem aqui em casa.
– Pra quê?
A voz de Fabinha começava a tremer.
– Pra gente conversar.
– Conversar o quê?
– Você sabe.
Plínio já não sorria.
– Eu não tenho nada pra conversar com você.
E desligou.
A garota ligou novamente na tarde seguinte, e também na outra. Plínio a
ignorava. Ligou no sábado. No domingo. E nada.
Na segunda-feira, Plínio, cansado, atendeu a ligação e disse:
– Tô indo aí.
Fabinha explicou tudo. Não gostava do tal garoto. Só tinha ficado com ele
para as amigas não desconfiarem. Não ia acontecer de novo.
– Você não tem vontade própria, não? Não tem personalidade? O que as
amiguinhas mandam, você faz?
Plínio sentia as palavras jorrando como numa represa que rachava.
– Eu já cansei deste negócio. Ficar escondendo das pessoas que eu tô com
você! E pra quê? Pra você dar uma de superior na frente das suas “amigas”?
Porque não pode ficar com o nerd aqui, não? Mas na hora de gemer, você não tem
vergonha, né? Na hora de tirar a roupa pro nerd você não liga pra opinião
nenhuma, né?
As lágrimas escorriam caudalosas nas bochechas de Fabinha.
– Eu cansei. Não quero mais te ver. Você não é nada mais pra mim!
A garota, que escutava as palavras de Plínio como facadas, irrompeu em
prantos desesperados.
– Você é a única pessoa com quem eu já fiz amor!
O garoto encarou-a, ferino.
– Você não fez amor comigo. Você deu pra mim. Só isso.
– Plínio!
– E pode ficar tranquila. Eu não vou contar nada pras suas amigas. Agora, eu
é que tenho vergonha de ter ficado com você!
Plínio abriu a porta e desapareceu. Fabinha, imóvel por um instante,
deixou-se cair no sofá, chorando, sufocando-se em soluços.
Por: Edu Café
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