Seguiram-se dias fúnebres. O garoto prometeu não virar o rosto para o outro
lado da sala, mas em vão. Ela não estava lá. E, no resto da semana, ficou
distante, apática. Os colegas notavam. Ela costumava ser tão alegre.
Chegou o domingo. Plínio terminava de almoçar quando tocou o telefone.
– Oi, Plínio.
Ele aguardava essa voz, fantasiava nas palavras que viriam, sabia exatamente
o que responder. Mas gelou.
– Eu queria te ver... eu tenho que te falar...
– A gente não tem mais nada o que conversar – sentenciou o garoto, numa
frieza que não correspondia às mãos trêmulas.
– Plínio...
Fabinha, agora, não emitia pouco mais do que um sussurro, doce, triste e
desesperado.
– ... eu te amo.
O garoto não registrou quanto durou aquele silêncio. Quando este foi cortado
pelo sinal pulsante do telefone, ele demorou a largar o aparelho. Ficou olhando
para lugar nenhum, vazio de pensamentos, de sentimentos, de reações. Jogou-se
na cama. E dormiu.
Fabinha não andava mais com as duas antigas companheiras. Uma outra garota, novata
naquele ano, que não tinha feito muitas amizades, a acompanhava agora. Enquanto
essa mudança se processava, não era percebida. Mas uma vez consolidada, era
muito clara.
Alguns dias depois, no intervalo, a nova amiga de Fabinha se aproximou de
Plínio. Chamou-o à parte e lhe deu um recado. A garota queria encontrar-se com
ele.
– Eu não tenho nada pra falar com ela.
Mas tinha algo a ouvir.
– Não. Já ouvi tudo.
As primeiras aulas do dia seguinte foram completamente perdidas para o
garoto. Seus pensamentos o consumiam. E só conseguia pensar em uma coisa: nela.
Olhava com frequência em sua direção. Perguntava-se se ela teria, enfim,
sossegado.
Mas constatou que não. No intevalo, ela chegou até ele, e explodiu.
– Você não tá entendendo não, Plínio? Eu não tô nem aí para aquelas meninas!
Eu tô pouco me lixando! Eu quero você! E mais ninguém! Será que você não pode
nem deixar eu te falar isso?
O garoto tentou acalmá-la.
– Fabinha... olha... não dá. Que bom que você não liga mais pra opinião dos
outros, mas o que a gente teve já acabou, entendeu? Eu...
Ele hesitou.
– Você o quê?
– Nada. Vamos cada um pro seu canto, que é o melhor que a gente faz.
E saiu. Alguns minutos depois, voltou à sala. A professora e todos os alunos
já estavam lá. Plínio não conseguiu deixar de olhar na direção dela. Os sons
das palavras da professora atingiam os seus ouvidos, mas não os penetravam.
Fabinha pôs os braços em sua mesa, e deitou neles a cabeça. Ficou assim um
minuto. Dois minutos. Três minutos. Até que a professora percebeu, ou cansou-se
de perceber.
– Fábia! O que você tem?
– Cólica – a garota chorava. – Tá doendo muito... tá doendo muito...
Foi permitido a ela ir embora. No dia seguinte, não apareceu. A nova amiga,
porém, procurou o garoto uma última vez.
– Cara, o que você tá fazendo? Tem uma menina super bacana, inteligente e
carinhosa querendo você e você despreza? Poxa, todo o mundo erra! Eu sei que
você gosta dela, não vem negar. Não pode perdoar? Por quê? Por orgulho? Pensa
bem! Pensa no que você vai perder!
Ele não fez outra coisa senão pensar. Contemplou o telefone a tarde toda. E foi
só às oito, quando a mãe reclamou que ele não tinha comido nada, que Plínio
tirou os olhos daquele aparelho.
Dormiu um sono agitado. Acordava várias vezes, e o calor, somado às imagens
desagradáveis dos sonhos, fazia-o suar a ponto de ficar molhado. Tomou uma
ducha e não dormiu mais. Olhava o teto, como se buscasse um abrigo também para
as entranhas.
Na tarde seguinte, saiu de casa. Trilhou o mesmo caminho de meses atrás,
quando levava nas costas uma mochila. Desta vez, nada. O botão do interfone era
o mesmo, assim como o barulho da campainha.
Fabinha abriu a porta. Vestia uma camisa branca, sob a qual se notava o
sutiã e os seios salientes. Na parte de baixo, um shortinho verde. O rosto era
tranquilo. Os olhos, contemplativos. Plínio a encarava, absorto. Ainda faltavam
algumas horas para as sete.
Por: Edu Café
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