No dia seguinte, Plínio voltava do recreio quando descobriu sua mesa toda
arrumada. O caderno estava perfeitamente alinhado às extremidades, o lápis e a
caneta azul acomodavam-se acima, apoiados na borracha, numa horizontal
perfeitamente paralela à linha do caderno, e o estojo, na mesma ordeira
disposição, estava fechado.
O garoto, num gesto compulsivo, o abriu, e quis checar o seu conteúdo, para
certificar-se de que nada estava faltando. Ao contrário, havia algo a mais ali.
Um bilhete cuidadosamente dobrado fez-se sentir nos seus dedos. Abrindo-o,
deparou-se com um número de telefone, abaixo do qual se lia, numa letra
caprichada em tinta rosa, a frase: “me liga”.
Às três horas, não tendo conseguido pensar em nada senão no bilhete desde
que o havia encontrado, segurando-o na mão, pegou o telefone e discou os
números da intrigante colega.
– Alô – a voz de Fabinha foi reconhecida imediatamente por Plínio.
– Oi. É o Plínio.
– Eu sei... tudo bem?
– Tudo.
Após um breve silêncio que pareceu durar um ano, o garoto perguntou
secamente:
– Você pediu pra eu te ligar?
– É, pedi. É que eu não tava entendendo nada da aula de geografia hoje... você
sabe que vai ter prova semana que vem, e eu tô morrendo de medo de afundar. E,
como eu sei que você é super inteligente e é bom em tudo, eu tava pensando se
você não podia me ajudar...
A fisionomia de Plínio correspondia perfeitamente ao silêncio que ele
manteve.
– Você podia vir aqui em casa... a minha mãe só chega às sete, então a gente
pode estudar à vontade...
Plínio não sabia o que pensar. Porém, uma viva memória dos acontecimentos do
fim de semana ecoava nele.
– Onde você mora?
De mochila nas costas, o garoto tomou o ônibus. Fabinha o recebeu com um
abraço e um beijo meio desajeitado na bochecha.
– Põe a sua mochila aqui – a garota apontou a mesa da sala, que ostentava
somente um vaso de flores no centro. – Vou buscar os meus cadernos.
Ela vestia uma camisa branca, sob a qual se notava o sutiã e os seios
salientes. Na parte de baixo, um shortinho azul, bastante curto, deixando à
vista suas pernas grossas. Os bonitos óculos lhe adornavam o rosto.
Indo para o quarto, tropeçou em uma das cadeiras. Plínio ainda não sabia se
devia estar ofendido ou lisonjeado pelo comportamento da colega.
Começaram abrindo o livro no capítulo do dia, embora Plínio suspeitasse que
os estudos estavam longe de ser a razão de estarem ali. Resolveram ler o texto
inicial em voz alta, para depois discutirem as questões. Leram o título ao
mesmo tempo, e também ao mesmo tempo cederam, pedindo ao outro para assumir a
leitura.
– Não. Lê você – disse Fabinha, enquanto, dessa vez, Plínio nada dizia.
O garoto recitou o texto com clareza, firmeza e boa entonação.
– Você lê tão bem... – suspirou Fabinha, encantada.
Plínio voltou o rosto para o livro, e a garota se repreendeu, pensando que
ele devia ter achado ridículo aquele comentário.
Fabinha então partiu para as questões. Leu a primeira, e em seguida pousou
os olhos inquisidoramente no colega. Ele, porém, não tinha prestado atenção em
nada do texto que havia acabado de ler.
– Deixa eu ver aqui... – Plínio voltou uma página, procurando a resposta.
O garoto foi cumprindo com perfeição o papel de professor que supostamente o
trouxera ali. E quanto mais se prolongava aquele teatro, mais difícil era sair
dele.
Após uma hora, Fabinha o chamou para comer alguma coisa. Foram até a
cozinha. A garota abriu a geladeira.
– O que você quer pra beber? Refrigerante? Suco?
– Que suco você tem?
– Tem de uva, de laranja, de pêssego...
– Nossa, odeio suco de pêssego.
– Ah, eu adoro... é o meu preferido – disse a garota. – De uva, então – e
fechou a geladeira.
– Peraí, você não vai tomar o de pêssego? O seu favorito?
Fabinha lançou-lhe um sorriso que parecia lhe tocar como uma brisa
perfumada.
– Eu não quero que a minha boca fique com um gosto que não te agrade...
Plínio, pulsante, encarou-a e, catarticamente, beijou a aluna.
Dirigiram-se ao sofá. Não falaram muito. Olharam-se bastante. As carícias
fluíam naturalmente e pairava uma harmonia que lembrava a perfeição.
– Minha mãe tá chegando – informou Fabinha, quando viu o relógio marcar
quinze para as sete.
Plínio chegou à rua e sentiu um vento frio contra o rosto. Não sabia bem o
que estava acontecendo, ou o que ia acontecer, mas sorria. Deslizando pelas
ruas da cidade noturna, atravessando o caminho dos carros com seus faróis
acesos e cruzando com os fatigados pedestres, o garoto nada percebia, nada
registrava. O som dos engarrafamentos e as luzes coloridas dos sinais compunham
uma atmosfera em que resplandecia, imponente, o rosto dela.
Por: Edu Café
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