Plínio adorava estudar. Tinha quinze anos, era alto, um pouco acima
do peso, e usava óculos de lentes grossas. Não possuía a habilidade de
se enturmar, perdia-se em grupos grandes e só conseguia conversar com um
ou outro camarada.
Certa vez, uma prima de seu pai
ia se casar. A festa seria pouco depois da cerimônia, em um salão
simples, mas muito bonito, um dos mais requisitados da cidade. Plínio,
na companhia de um de seus primos, foi explorar o lugar, que possuía uma
parte semiaberta. A noite de lua cheia estava limpa e fresca. Os dois
foram até uma das extremidades, que dava para um longo corredor. Duas
garotas vinham na direção contrária.
Aproximando-se, o garoto reconheceu Fabinha. Era sua colega de sala no colégio e, por acaso, pertencia à família do noivo.
Aproximando-se, o garoto reconheceu Fabinha. Era sua colega de sala no colégio e, por acaso, pertencia à família do noivo.
– O que você tá fazendo aqui? – a garota quis saber, atônita.
– Tô no casamento da minha prima. E você?
– Ah. Tô no casamento do meu tio.
Ficaram se olhando. Nunca haviam trocado uma palavra na vida, apesar de
estudarem juntos há quatro anos. Fabinha, que usava um belíssimo
vestido prateado, saiu com a outra.
– Pô, que gata, Plínio! De onde você conhece ela?
A festa estava apenas começando. Os dois amigos entraram novamente.
Plínio escaneou cada canto do salão, ávido. Fabinha sentava-se com a
amiga no fundo, à direita.
– Vem, vamos sentar aqui – sugeriu Plínio, já se acomodando.
Fabinha o avistou. Ria, olhando para o centro do recinto, onde os
convidados dançavam. Plínio a encarava implacavelmente. Nem percebeu que
a amiga da colega lhe lançava olhares furtivos.
– O que ela tá cochichando ali, hein?
Enfim, a garota olhou em sua direção. Estampava um sorriso malicioso.
Levantou-se, e caminhou com a companheira rumo às portas que davam para o
terraço.
– E aí, véi, você vai lá?
Plínio sentia o coração bater, em adrenalina. Respondeu ao amigo
chamando-o para seguir as duas. Dirigiram-se ao mesmo corredor em que as
tinham visto na primeira vez. Estavam lá, acomodadas nas bancadas.
– Peraí, cara, o que nós vamos falar? – Plínio estava apavorado.
– Sei lá, véi, a gente pensa na hora – o primo tentou tranquilizá-lo. –
Mas olha só: conversa com ela, faz ela rir, e se ela ficar te olhando,
beija ela!
As duas riam, e notavam os garotos com o
canto dos olhos. Quando os sentiram a um passo de si mesmas, viraram-se
em sua direção.
– E aí? – Plínio encarava novamente Fabinha.
A garota moveu o rosto um pouco para o outro lado, ainda olhando para ele.
– Que coincidência minha prima casar com o seu tio, né?
– É – Fabinha parecia irônica.
– Ela é bonita, né?
– Nossa, ela é linda! Ficou maravilhosa naquele vestido!
Enquanto isso, o primo dele sentava-se ao lado da amiga dela, iniciando
uma conversa. Plínio, percebendo isso, sentou-se ao lado de Fabinha.
– Eu não sabia que você usava óculos – Plínio havia estranhado isso desde que a vira.
– Eu uso lente, mas meu olho ficou irritado hoje.
– Você fica bonita assim.
– Eu não sou bonita normalmente, não?
– Não. Normalmente você é horrorosa.
– Ai, credo, Plínio! – Fabinha sorria muito, e o garoto se surpreendeu
ao ouvir o seu nome. Achava que ela mal sabia quem ele era.
– Até parece... você é a menina mais linda da sala... do colégio... –
embora essa não fosse uma opinião compartilhada pelos seus colegas, o
garoto expressava uma verdade íntima.
Fabinha lhe
sorria tão sinceramente, que era Plínio, agora, que achava que mal sabia
quem ela era. A garota insistia em baixar o olhar para, em seguida,
voltá-lo ao garoto, sedutoramente.
– Fabi, a gente vai lá dentro comer alguma coisa – disse a amiga, pois o primo, ágil, fora bem-sucedido.
Saíram. A taquicardia de Plínio retornou.
– Sabe, quando eu vi o convite do casamento, lembrei de você – Plínio
estava guardando essa fala desde que a vira saindo do salão.
– Uai, por quê?
– Porque tinha o seu sobrenome.
– Ah. Nossa, Ferreira é tão comum!
– Mas eu lembrei.
– Eu também lembrei de você.
– Fala sério...
– É verdade! Eu li e pensei, “Plínio Dantas!”
– Eu achava que você não sabia nem o meu nome.
Fabinha, desta vez, não desviou o olhar. Encarou-o sem titubear.
– Claro que eu sei o seu nome, Plínio.
O garoto lembrou-se do conselho do primo. O momento era este. Ele não
podia desperdiçar. Com as mãos tremendo, engoliu em seco e aproximou seu
rosto do dela. Ela ainda o olhava. Inclinando-se, a garota suavemente
fechou os olhos. Esvaziando-se de pensamentos, Plínio tocou com os seus
os lábios de Fabinha. Ela acariciava os seus cabelos, dava-lhe muitos
estalinhos seguidos, e depois lhe beijava longamente, movendo o rosto
vez após vez. Levantaram-se, caminharam pelo terraço, chegando até a
grade que dava para a rua. De pé, continuaram se beijando. Diziam-se
coisas suaves, contavam casos, expunham preferências. De mãos dadas,
andaram até a outra extremidade. Beijavam-se, abraçados, quando um homem
de quarenta anos apareceu.
– Fábia! Vamos embora!
– É o meu pai – disse Fabinha, um pouco envergonhada. – Eu tenho que ir. Tchau!
Plínio permaneceu ali por um momento. Ergueu a meia altura o braço direito e o balançou, de punho cerrado.
Por: Edu Café
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