O olhar é um exercício que exige tempo. Se não houver dedicação ao enxergar, as transformações podem passar despercebidas.
O escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann soube mostrar a diferença entre “olhares” no conto A Janela de Esquina do Meu Primo, lançado pela Cosac Naify.
O texto publicado postumamente, no mesmo ano de sua morte, apresenta pontos semelhantes à vida do autor, mas não é claramente autobiográfico. Inédito no Brasil, é narrado por um menino sem nome que visita a casa do primo, um escritor inválido e recluso em seu apartamento no centro de Berlim, na esquina em frente à praça do mercado. Os dois passam o dia na janela descrevendo e analisando os fatos e as pessoas que transitam por uma feira. As cenas dão um roteiro de cinema.
O livro se passa em apenas uma tarde. Além de escritor, Hoffmann foi musicólogo, trazendo ao livro muitas citações como na primeira frase do livro, para caracterizar o primo escritor:
Meu pobre primo é atingido por destino similar ao do conhecido Scarron.
Scarron, assim como Hoffmann e a personagem do livro, sofre de uma paralisia progressiva, o que não o impediu de seguir com a escrita, ao contrário da personagem. Um fato interessante é que Hoffmann, em vida, realmente morou em um apartamento cuja única janela dava uma visão direta à praça do mercado e sofria do mesmo mal que o personagem do livro, o que deu espaço a teorias que dizem que Hoffmann se dividiu em duas partes, uma significando o desejo de ser livre, seu estado astral, representada pelo menino que, antes de chegar à casa do primo, passa por entre as várias barracas da praça; e outra significando sua paralisia, seu estado corporal, representada pelo primo escritor que, ao ter seu corpo preso, teve sua mente liberta.
Por: Gustavo Pitanga


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