27 de setembro de 2015

Discussão literária: Capitu traiu ou não Bentinho?

  Olá leitores, como estão?
  
  Desculpem-me novamente pelo sumiço, mas agora vou deixar um monte de posts salvos no rascunho para postar semanalmente para vocês, prometo hehe

 E para hoje, eu quis fazer algo diferenciado de tudo que postamos aqui no Blog. Recentemente, eu tive que ler o clássico nacional Dom Casmurro para a escola, pois minha professora iria dar um trabalho sobre. Na verdade, nós iríamos apresentar meio que um teatro, sendo que o mesmo seria um julgamento para decidir se a Capitu, personagem do livro, traiu mesmo ou não traiu Bentinho, seu marido. Iria ter os personagens que mais fizeram parte da trama (tivemos que dispensar alguns, como a tia do Bentinho, já que não havia pessoas na minha sala o suficiente para encenar todos os personagens), além de um juiz, dois advogados de defesa e dois promotores (advogados de acusação). Seria como um julgamento de verdade: os advogados deveriam fazer perguntas para os outros personagens (no caso, testemunhas), e também para a Capitu (réu) e para o Bentinho, além de fazer todo um sermão, para convencer o júri, que no caso seria composto por algumas pessoas que estivessem assistindo o teatro, da inocência ou da culpa de Capitu. Eu no caso seria uma advogada de defesa. Eu e minha amiga, que também teria o mesmo papel que eu, além das duas outras promotoras tivemos que fazer um trabalho contendo todos os argumentos que usaríamos no dia do julgamento. 

  Infelizmente, para mim que já tinha feito o trabalho, minha professora desistiu do teatro por várias questões e acabou dando uma prova discursiva. Para não falar que desperdicei o tempo que usei para fazer o trabalho com meus argumentos para tentar defender Capitu, decidi compartilhar eles aqui com vocês. Antes disso, confiram a sinopse e uma breve resenha sobre a obra:

Essa é a edição que eu li, uma das mais completas (eu acho): 248 páginas.
Sinopse: Dom Casmurro - Bentinho, o narrador do romance, apaixona-se pela vizinha Capitu ainda criança. Ao se tornar adulto, consegue escapar do seminário ao qual estava destinado pela mãe e se casa com a bela moça. Quando morre seu mais fiel amigo, Escobar, ele observa a esposa e passa a acreditar que ela amava o morto. Obcecado, Bentinho começa a reunir indícios da traição da mulher, colocando o casamento em crise. Ao leitor, resta a dúvida: Capitu traiu ou não o marido? 

  Antes de colocar os argumentos, gostaria só de colocar alguns pontos sobre o enredo do livro em si, tirando a traição. Bom, todos sabem (ou pelo menos a maioria) que o livro é famoso devido a essa dúvida que o Machado de Assis deixa, ou seja, se a Capitu traiu ou não. Antes eu queria que ele tivesse, de alguma forma, deixado um manuscrito revelando a verdade, mas depois eu entendi: essa é a graça do livro. O autor ter deixado o próprio leitor formar sua própria opinião e decidir se a mulher cometeu esse crime (na época em que o livro foi escrito, adultério era um crime) ou não. Ao longo dos anos, Dom Casmurro tem sido o foco de muitos debates acerca do grande mistério que trás, e tem caído em vários vestibulares em todo o país.

  Além disso, como o livro foi escrito em 1800 e pouco, a linguagem é um pouco difícil. Isso faz com que muita gente desista no primeiro capítulo que lê, mas não se preocupe: eu tenho 14 anos, li o livro e, mesmo não tendo entendido 100% da linguagem, consegui captar boa parte da história.

  E uma última coisa: eu não considero o enredo da história interessante, nem nada disso, e acho que quase todo mundo também não. O que desperta o interesse nessa obra é o enigma da traição que o autor deixou. Desde antes de eu ler o livro tinha certeza que Capitu era inocente, já que eu já havia lido um tempo atrás a releitura Dona Casmurra e Seu Tigrão (resenha aqui), e como eu tinha que encontrar argumentos para defender a mulher, o livro se tornou um desafio para mim, uma questão de honra heuehe Vencer esse desafio foi o que despertou meu interesse.

  Agora sim, vamos para os argumentos (lembrando que os mesmos contém muitos spoilers):

Página 126. Parágrafo 3. Trecho: “Outra idéia, não, - um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de José Dias: ‘Algum peralta da vizinhança’. [...] Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu-, e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e inveja.” – Nesse trecho temos uma declaração do próprio Bentinho dizendo que ele teve ciúmes de Capitu só porque José Dias tinha dito a ele que ela andava feliz e podemos observar que ele era um cara possessivo, pois ele diz que se sentia senhor dela, sendo que eles nem eram oficialmente namorados.

Página 134. Parágrafo 1. Trecho: “Ia só andando, aceitando o pior, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana, e foi então que a Esperança, para combater o Terror, me segredou ao coração, não estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras, mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: ‘Mamãe defunta, acaba o seminário.’ “ – Neste trecho podemos perceber que a noção de esperança de Bentinho de não ir para o seminário é se a mãe dele morrer. Até antes dessa parte temos a impressão de que o mesmo é super apegado à mãe e que faria de tudo por ela, mas com essa frase em destaque essa impressão muda completamente.

Página 145. Parágrafo 2. Trecho: A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair vida com o sangue...” – Neste trecho podemos perceber a possessividade e ciúmes doentio de Bentinho, que queria matar Capitu só porque ela tinha olhada para um cowboy.

Página 156. Parágrafo 4 e 5. Trecho: “Quis responder que não, que não queria ver Manduca, e fiz até um gesto para fugir. [...] Não culpo o homem; para ele, a coisa mais importante do momento era o filho. Mas também não me culpem a mim; para mim, a coisa mais importante era Capitu. [...] Se eu passasse antes ou depois, ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer [...] Toda hora é apropriada para o óbito; [...]” – Neste trecho, podemos perceber que Bentinho não está nem um pouco preocupado com os sentimentos do pai de Manduca, e que só pensa em Capitu. Ele vive para ela. Podemos encaixá-lo no comportamento de um sociopata.

Página 186. Parágrafo 1. Trecho: “[...] Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela.” – Neste trecho, podemos perceber que Bentinho tem ciúmes simplesmente dos pensamentos da mulher.

Página 208. Parágrafo 5. Trecho: “No meio dela, Capitu olho alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...” – Neste trecho, podemos perceber a obsessão de Bentinho por Capitu. Aqui podemos relembrar que a mulher também era amiga do falecido, e o chorar em seu enterro não faz dela sua amante.

Página 217. Parágrafo 2. Trecho: “Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada.” – Neste trecho, podemos perceber como Bentinho era sanguinário, como tinha o comportamento de um verdadeiro psicopata.

Página 224. Parágrafo 1. Trecho: “[...] o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei  Ezequiel se já tomara café.” -  Neste trecho, podemos destacar que Bentinho era impulsivo, uma das características de um sociopata, pois ele oferece e insiste que seu filho tome o café envenenado. Mesmo se ele não fosse seu filho, não justificaria essa tentativa de homicídio covarde.

  Alguns sintomas de ciúme doentio:


   A pessoa é a única razão de viver dele(a). Trecho: “Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade.”

  É melhor morrer do que viver sem você. Não temos isso porque, quando Bentinho fica sabendo que Capitu morreu, ele nem ligou: “A mãe -, creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça. Acabei de vestir-me...”

  A pessoa é frequentemente visto e citado como “propriedade” (você é meu / você é minha) e o “amor” é apenas uma forma de justificar isso. Trecho: “[...] e tão senhor me sentia dela...”

  O ciumento exagerado é tão sociável quanto antissocial. Tudo depende do que irá lhe trazer mais segurança [...]poderá fazer uso de um comportamento antissocial apenas parar lhe afastar de situações (pessoas) que representam ameaça para ele(a). Bentinho diz no começo do livro que não tinha amigos e que só se relacionava com seus familiares e Capitu; só depois que faz amizade com Escobar.

   O que é um Sociopata:
 

   Sociopata é uma palavra usada para descrever uma pessoa que sofre de sociopatia, uma psicopatologia que provoca um comportamento impulsivo, hostil e antissocial.
   A sociopatia é classificada como um transtorno de personalidade que é caracterizado por um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões dos outros.
   Um sociopata não tem apego aos valores morais e é capaz de simular sentimentos, para conseguir manipular outras pessoas. Além disso, a sua incapacidade de controlar as suas emoções negativas torna muito difícil estabelecer um relacionamento estável com outras pessoas.
   Lembrando que o livro é contado sob o ponto de vista de Bentinho, ou seja, não podemos ter certeza de que a história aconteceu do jeito que foi contada. Temos situações em que ele pode ter usado o escrito para esconder a verdadeira narrativa, como a possibilidade dele ser gay e apaixonado por Escobar ou de ele ter traído Capitu, já que temos um trecho em que ele troca olhares com Sancha e tudo mais. Como o sociopata tem a capacidade da manipular as pessoas, Bentinho pode ter feito o mesmo e ter tentado jogar a culpa na esposa.



  E aí gente, quem aqui já leu Dom Casmurro, ou alguma releitura? Vocês acham que Capitu é inocente ou culpada? Comente aqui em baixo :D
  Até a próxima leitores <3 

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