27 de dezembro de 2014

Conto: A vida breve das aparências (Parte IV)

  Na manhã seguinte, aconteceu o que Plínio já esperava. Fabinha não lhe deu atenção, não lhe dirigiu a palavra, fingiu que não o conhecia. Mas sentia o olhar do garoto implacável sobre si, e respondia com soslaios maliciosos. Havia algo de inebriante nesse segredo, e Plínio constatava a veracidade do velho clichê segundo o qual o proibido tem mais sabor.
 
  Os dias foram se passando nessa toada. Pela manhã, mal se conheciam. De tarde, eram cada vez mais íntimos. E essa intimidade surgia em todos os sentidos. Sabiam mais e mais da vida um do outro, conheciam cada gosto e preferência, decodificavam cada gesto. Tocavam-se mais ousadamente. Não se passaram três meses antes de Fabinha entregar-se totalmente ao doce assédio de Plínio. Os amantes, absortos, olhavam-se deitados, acariciando o rosto um do outro.

   Depois disso, o garoto passou a abordá-la também no colégio. Seguia Fabinha até ficarem sozinhos, e a agarrava. Nas primeiras vezes, ela resistia, sem muita convicção, e acabava deixando, ofegante pelo perigo. Porém, quando foram surpreendidos por algumas garotas, que nem conheciam, Fabinha se preocupou e não cedeu mais.

  Plínio, certo dia, após uma investida sem sucesso, confidenciou-se com um amigo. Deu-se conta de que até então não tinha falado sobre o caso com ninguém. Surpreendeu-se por ter sido tão fácil não dizer nada. O amigo demorou a acreditar.

  – Que isso, cara! A Fabinha?

  Se não o conhecesse bem, pensaria que era invenção. Não havia ninguém para confirmar a história. Mas não foi isso o que deixou o amigo cismado.

  – Cara, por que você tá se sujeitando a isso? Não poder falar pra ninguém, ter que mentir, esconder?
  Plínio, depois de considerar a pergunta, olhou-o e respondeu com convicção:

  – Porque eu tô transando com ela!

  O amigo reagiu como alguém que se sente estúpido por não ter sacado uma resposta tão óbvia.

  Num fim de semana, haveria uma festa na casa de um colega mútuo. Praticamente todos da sala estariam presentes. Plínio acordou abatido, já prevendo que não poderia ficar com Fabinha. Pensou em nem ir. Mas foi. Chegando lá, viu um garoto mais velho conversando com ela. Tomou algumas cervejas para se soltar e, na quarta, sentiu uma pontada no meio do peito. Uma sensação estranha, desconhecida, produzia-se em seu estômago. Fabinha acabava de beijar outro cara.

  Da quarta, Plínio passou à décima cerveja em questão de minutos. Da décima, passou à décima-primeira e assim por diante. A música e as vozes se embaralhavam na sua cabeça. Não registrava nada do que lhe falavam. Lutava para não perder o equilíbrio. Quando foi ao banheiro pela enésima vez, ajoelhou-se e soltou tudo o que guardava dentro de si. Ou quase tudo. Saiu, andou poucos metros e sentou-se no chão, cambaleante. Mal ouviu um colega que se aproximava.

  – Você tá legal aí, cara?

  A pontada no peito e a sensação estranha no estômago não o abandonaram. Três dias se passaram sem que ligasse para Fabinha, sem que Fabinha ligasse para ele. Na quarta-feira, Plínio atendeu o telefone.

  – Oi – disse a garota, numa voz macia.

  – O que você quer? – o tom de Plínio era ríspido.

  – Desde sexta que a gente não se fala.

  – É.

  – Esqueceu de mim?

  Plínio sorriu, apreciando a ironia.

  – Eu é que esqueci de você?

  – Vem aqui em casa.

  – Pra quê?

  A voz de Fabinha começava a tremer.

  – Pra gente conversar.

  – Conversar o quê?

  – Você sabe.

  Plínio já não sorria.

  – Eu não tenho nada pra conversar com você.

  E desligou.

  A garota ligou novamente na tarde seguinte, e também na outra. Plínio a ignorava. Ligou no sábado. No domingo. E nada.

  Na segunda-feira, Plínio, cansado, atendeu a ligação e disse:

  – Tô indo aí.

  Fabinha explicou tudo. Não gostava do tal garoto. Só tinha ficado com ele para as amigas não desconfiarem. Não ia acontecer de novo.

  – Você não tem vontade própria, não? Não tem personalidade? O que as amiguinhas mandam, você faz?

  Plínio sentia as palavras jorrando como numa represa que rachava.

  – Eu já cansei deste negócio. Ficar escondendo das pessoas que eu tô com você! E pra quê? Pra você dar uma de superior na frente das suas “amigas”? Porque não pode ficar com o nerd aqui, não? Mas na hora de gemer, você não tem vergonha, né? Na hora de tirar a roupa pro nerd você não liga pra opinião nenhuma, né?

  As lágrimas escorriam caudalosas nas bochechas de Fabinha.

  – Eu cansei. Não quero mais te ver. Você não é nada mais pra mim!

  A garota, que escutava as palavras de Plínio como facadas, irrompeu em prantos desesperados.

  – Você é a única pessoa com quem eu já fiz amor!

  O garoto encarou-a, ferino.

  – Você não fez amor comigo. Você deu pra mim. Só isso.

  – Plínio!

  – E pode ficar tranquila. Eu não vou contar nada pras suas amigas. Agora, eu é que tenho vergonha de ter ficado com você!

  Plínio abriu a porta e desapareceu. Fabinha, imóvel por um instante, deixou-se cair no sofá, chorando, sufocando-se em soluços. 

Por: Edu Café

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