27 de dezembro de 2014

Conto: A vida breve das aparências (Parte V)

  Seguiram-se dias fúnebres. O garoto prometeu não virar o rosto para o outro lado da sala, mas em vão. Ela não estava lá. E, no resto da semana, ficou distante, apática. Os colegas notavam. Ela costumava ser tão alegre.

  Chegou o domingo. Plínio terminava de almoçar quando tocou o telefone.

  – Oi, Plínio.

  Ele aguardava essa voz, fantasiava nas palavras que viriam, sabia exatamente o que responder. Mas gelou.

  – Eu queria te ver... eu tenho que te falar...

  – A gente não tem mais nada o que conversar – sentenciou o garoto, numa frieza que não correspondia às mãos trêmulas.

  – Plínio...

  Fabinha, agora, não emitia pouco mais do que um sussurro, doce, triste e desesperado.

  – ... eu te amo.

  O garoto não registrou quanto durou aquele silêncio. Quando este foi cortado pelo sinal pulsante do telefone, ele demorou a largar o aparelho. Ficou olhando para lugar nenhum, vazio de pensamentos, de sentimentos, de reações. Jogou-se na cama. E dormiu.

  Fabinha não andava mais com as duas antigas companheiras. Uma outra garota, novata naquele ano, que não tinha feito muitas amizades, a acompanhava agora. Enquanto essa mudança se processava, não era percebida. Mas uma vez consolidada, era muito clara.

  Alguns dias depois, no intervalo, a nova amiga de Fabinha se aproximou de Plínio. Chamou-o à parte e lhe deu um recado. A garota queria encontrar-se com ele.

  – Eu não tenho nada pra falar com ela.

  Mas tinha algo a ouvir.

  – Não. Já ouvi tudo.

  As primeiras aulas do dia seguinte foram completamente perdidas para o garoto. Seus pensamentos o consumiam. E só conseguia pensar em uma coisa: nela. Olhava com frequência em sua direção. Perguntava-se se ela teria, enfim, sossegado.

  Mas constatou que não. No intevalo, ela chegou até ele, e explodiu.

  – Você não tá entendendo não, Plínio? Eu não tô nem aí para aquelas meninas! Eu tô pouco me lixando! Eu quero você! E mais ninguém! Será que você não pode nem deixar eu te falar isso?

  O garoto tentou acalmá-la.

  – Fabinha... olha... não dá. Que bom que você não liga mais pra opinião dos outros, mas o que a gente teve já acabou, entendeu? Eu...

  Ele hesitou.

  – Você o quê?

  – Nada. Vamos cada um pro seu canto, que é o melhor que a gente faz.

  E saiu. Alguns minutos depois, voltou à sala. A professora e todos os alunos já estavam lá. Plínio não conseguiu deixar de olhar na direção dela. Os sons das palavras da professora atingiam os seus ouvidos, mas não os penetravam. Fabinha pôs os braços em sua mesa, e deitou neles a cabeça. Ficou assim um minuto. Dois minutos. Três minutos. Até que a professora percebeu, ou cansou-se de perceber.

   – Fábia! O que você tem?

  – Cólica – a garota chorava. – Tá doendo muito... tá doendo muito...

  Foi permitido a ela ir embora. No dia seguinte, não apareceu. A nova amiga, porém, procurou o garoto uma última vez.

  – Cara, o que você tá fazendo? Tem uma menina super bacana, inteligente e carinhosa querendo você e você despreza? Poxa, todo o mundo erra! Eu sei que você gosta dela, não vem negar. Não pode perdoar? Por quê? Por orgulho? Pensa bem! Pensa no que você vai perder!

  Ele não fez outra coisa senão pensar. Contemplou o telefone a tarde toda. E foi só às oito, quando a mãe reclamou que ele não tinha comido nada, que Plínio tirou os olhos daquele aparelho.

  Dormiu um sono agitado. Acordava várias vezes, e o calor, somado às imagens desagradáveis dos sonhos, fazia-o suar a ponto de ficar molhado. Tomou uma ducha e não dormiu mais. Olhava o teto, como se buscasse um abrigo também para as entranhas.

  Na tarde seguinte, saiu de casa. Trilhou o mesmo caminho de meses atrás, quando levava nas costas uma mochila. Desta vez, nada. O botão do interfone era o mesmo, assim como o barulho da campainha.

  Fabinha abriu a porta. Vestia uma camisa branca, sob a qual se notava o sutiã e os seios salientes. Na parte de baixo, um shortinho verde. O rosto era tranquilo. Os olhos, contemplativos. Plínio a encarava, absorto. Ainda faltavam algumas horas para as sete. 

Por: Edu Café

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