27 de dezembro de 2014

Conto: A vida breve das aparências (Parte III)

  No dia seguinte, Plínio voltava do recreio quando descobriu sua mesa toda arrumada. O caderno estava perfeitamente alinhado às extremidades, o lápis e a caneta azul acomodavam-se acima, apoiados na borracha, numa horizontal perfeitamente paralela à linha do caderno, e o estojo, na mesma ordeira disposição, estava fechado.

  O garoto, num gesto compulsivo, o abriu, e quis checar o seu conteúdo, para certificar-se de que nada estava faltando. Ao contrário, havia algo a mais ali. Um bilhete cuidadosamente dobrado fez-se sentir nos seus dedos. Abrindo-o, deparou-se com um número de telefone, abaixo do qual se lia, numa letra caprichada em tinta rosa, a frase: “me liga”.

   Plínio, imediatamente e num reflexo, virou-se para o outro lado da sala. Sentada, Fabinha olhava em sua direção, com o mesmo sorriso malicioso do casamento. Assim que o garoto teve tempo de registrar o olhar, a garota se virou para a professora, que acabava de começar sua preleção.

  Às três horas, não tendo conseguido pensar em nada senão no bilhete desde que o havia encontrado, segurando-o na mão, pegou o telefone e discou os números da intrigante colega.

  – Alô – a voz de Fabinha foi reconhecida imediatamente por Plínio.

  – Oi. É o Plínio.

  – Eu sei... tudo bem?

  – Tudo.

  Após um breve silêncio que pareceu durar um ano, o garoto perguntou secamente:

  – Você pediu pra eu te ligar?

  – É, pedi. É que eu não tava entendendo nada da aula de geografia hoje... você sabe que vai ter prova semana que vem, e eu tô morrendo de medo de afundar. E, como eu sei que você é super inteligente e é bom em tudo, eu tava pensando se você não podia me ajudar...

  A fisionomia de Plínio correspondia perfeitamente ao silêncio que ele manteve.

  – Você podia vir aqui em casa... a minha mãe só chega às sete, então a gente pode estudar à vontade...

  Plínio não sabia o que pensar. Porém, uma viva memória dos acontecimentos do fim de semana ecoava nele.

  – Onde você mora?

  De mochila nas costas, o garoto tomou o ônibus. Fabinha o recebeu com um abraço e um beijo meio desajeitado na bochecha.

  – Põe a sua mochila aqui – a garota apontou a mesa da sala, que ostentava somente um vaso de flores no centro. – Vou buscar os meus cadernos.

  Ela vestia uma camisa branca, sob a qual se notava o sutiã e os seios salientes. Na parte de baixo, um shortinho azul, bastante curto, deixando à vista suas pernas grossas. Os bonitos óculos lhe adornavam o rosto.

  Indo para o quarto, tropeçou em uma das cadeiras. Plínio ainda não sabia se devia estar ofendido ou lisonjeado pelo comportamento da colega.

  Começaram abrindo o livro no capítulo do dia, embora Plínio suspeitasse que os estudos estavam longe de ser a razão de estarem ali. Resolveram ler o texto inicial em voz alta, para depois discutirem as questões. Leram o título ao mesmo tempo, e também ao mesmo tempo cederam, pedindo ao outro para assumir a leitura.

  – Não. Lê você – disse Fabinha, enquanto, dessa vez, Plínio nada dizia.

  O garoto recitou o texto com clareza, firmeza e boa entonação.

  – Você lê tão bem... – suspirou Fabinha, encantada.

  Plínio voltou o rosto para o livro, e a garota se repreendeu, pensando que ele devia ter achado ridículo aquele comentário.

  Fabinha então partiu para as questões. Leu a primeira, e em seguida pousou os olhos inquisidoramente no colega. Ele, porém, não tinha prestado atenção em nada do texto que havia acabado de ler.

  – Deixa eu ver aqui... – Plínio voltou uma página, procurando a resposta.

  O garoto foi cumprindo com perfeição o papel de professor que supostamente o trouxera ali. E quanto mais se prolongava aquele teatro, mais difícil era sair dele.

  Após uma hora, Fabinha o chamou para comer alguma coisa. Foram até a cozinha. A garota abriu a geladeira.

  – O que você quer pra beber? Refrigerante? Suco?

  – Que suco você tem?

  – Tem de uva, de laranja, de pêssego...

  – Nossa, odeio suco de pêssego.

  – Ah, eu adoro... é o meu preferido – disse a garota. – De uva, então – e fechou a geladeira.

  – Peraí, você não vai tomar o de pêssego? O seu favorito?

  Fabinha lançou-lhe um sorriso que parecia lhe tocar como uma brisa perfumada.

  – Eu não quero que a minha boca fique com um gosto que não te agrade...

  Plínio, pulsante, encarou-a e, catarticamente, beijou a aluna.

  Dirigiram-se ao sofá. Não falaram muito. Olharam-se bastante. As carícias fluíam naturalmente e pairava uma harmonia que lembrava a perfeição.

  – Minha mãe tá chegando – informou Fabinha, quando viu o relógio marcar quinze para as sete.

  Plínio chegou à rua e sentiu um vento frio contra o rosto. Não sabia bem o que estava acontecendo, ou o que ia acontecer, mas sorria. Deslizando pelas ruas da cidade noturna, atravessando o caminho dos carros com seus faróis acesos e cruzando com os fatigados pedestres, o garoto nada percebia, nada registrava. O som dos engarrafamentos e as luzes coloridas dos sinais compunham uma atmosfera em que resplandecia, imponente, o rosto dela.

Por: Edu Café

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