23 de dezembro de 2014

Conto: A vida breve das aparências (Parte I)

  Plínio adorava estudar. Tinha quinze anos, era alto, um pouco acima do peso, e usava óculos de lentes grossas. Não possuía a habilidade de se enturmar, perdia-se em grupos grandes e só conseguia conversar com um ou outro camarada.

  Certa vez, uma prima de seu pai ia se casar. A festa seria pouco depois da cerimônia, em um salão simples, mas muito bonito, um dos mais requisitados da cidade. Plínio, na companhia de um de seus primos, foi explorar o lugar, que possuía uma parte semiaberta. A noite de lua cheia estava limpa e fresca. Os dois foram até uma das extremidades, que dava para um longo corredor. Duas garotas vinham na direção contrária.


   Aproximando-se, o garoto reconheceu Fabinha. Era sua colega de sala no colégio e, por acaso, pertencia à família do noivo.

  – O que você tá fazendo aqui? – a garota quis saber, atônita.

  – Tô no casamento da minha prima. E você?

  – Ah. Tô no casamento do meu tio.

  Ficaram se olhando. Nunca haviam trocado uma palavra na vida, apesar de estudarem juntos há quatro anos. Fabinha, que usava um belíssimo vestido prateado, saiu com a outra.

  – Pô, que gata, Plínio! De onde você conhece ela?

  A festa estava apenas começando. Os dois amigos entraram novamente. Plínio escaneou cada canto do salão, ávido. Fabinha sentava-se com a amiga no fundo, à direita.

  – Vem, vamos sentar aqui – sugeriu Plínio, já se acomodando.

  Fabinha o avistou. Ria, olhando para o centro do recinto, onde os convidados dançavam. Plínio a encarava implacavelmente. Nem percebeu que a amiga da colega lhe lançava olhares furtivos.

  – O que ela tá cochichando ali, hein?

  Enfim, a garota olhou em sua direção. Estampava um sorriso malicioso. Levantou-se, e caminhou com a companheira rumo às portas que davam para o terraço.

  – E aí, véi, você vai lá?

  Plínio sentia o coração bater, em adrenalina. Respondeu ao amigo chamando-o para seguir as duas. Dirigiram-se ao mesmo corredor em que as tinham visto na primeira vez. Estavam lá, acomodadas nas bancadas.

  – Peraí, cara, o que nós vamos falar? – Plínio estava apavorado.

  – Sei lá, véi, a gente pensa na hora – o primo tentou tranquilizá-lo. – Mas olha só: conversa com ela, faz ela rir, e se ela ficar te olhando, beija ela!

  As duas riam, e notavam os garotos com o canto dos olhos. Quando os sentiram a um passo de si mesmas, viraram-se em sua direção.

  – E aí? – Plínio encarava novamente Fabinha.

  A garota moveu o rosto um pouco para o outro lado, ainda olhando para ele.

  – Que coincidência minha prima casar com o seu tio, né?

  – É – Fabinha parecia irônica.

  – Ela é bonita, né?

  – Nossa, ela é linda! Ficou maravilhosa naquele vestido!

  Enquanto isso, o primo dele sentava-se ao lado da amiga dela, iniciando uma conversa. Plínio, percebendo isso, sentou-se ao lado de Fabinha.

  – Eu não sabia que você usava óculos – Plínio havia estranhado isso desde que a vira.

  – Eu uso lente, mas meu olho ficou irritado hoje.

  – Você fica bonita assim.

  – Eu não sou bonita normalmente, não?

  – Não. Normalmente você é horrorosa.

  – Ai, credo, Plínio! – Fabinha sorria muito, e o garoto se surpreendeu ao ouvir o seu nome. Achava que ela mal sabia quem ele era.

  – Até parece... você é a menina mais linda da sala... do colégio... – embora essa não fosse uma opinião compartilhada pelos seus colegas, o garoto expressava uma verdade íntima.

  Fabinha lhe sorria tão sinceramente, que era Plínio, agora, que achava que mal sabia quem ela era. A garota insistia em baixar o olhar para, em seguida, voltá-lo ao garoto, sedutoramente.

  – Fabi, a gente vai lá dentro comer alguma coisa – disse a amiga, pois o primo, ágil, fora bem-sucedido.

  Saíram. A taquicardia de Plínio retornou.

  – Sabe, quando eu vi o convite do casamento, lembrei de você – Plínio estava guardando essa fala desde que a vira saindo do salão.

  – Uai, por quê?

  – Porque tinha o seu sobrenome.

  – Ah. Nossa, Ferreira é tão comum!

  – Mas eu lembrei.

  – Eu também lembrei de você.

  – Fala sério...

  – É verdade! Eu li e pensei, “Plínio Dantas!”

  – Eu achava que você não sabia nem o meu nome.

  Fabinha, desta vez, não desviou o olhar. Encarou-o sem titubear.

  – Claro que eu sei o seu nome, Plínio.

  O garoto lembrou-se do conselho do primo. O momento era este. Ele não podia desperdiçar. Com as mãos tremendo, engoliu em seco e aproximou seu rosto do dela. Ela ainda o olhava. Inclinando-se, a garota suavemente fechou os olhos. Esvaziando-se de pensamentos, Plínio tocou com os seus os lábios de Fabinha. Ela acariciava os seus cabelos, dava-lhe muitos estalinhos seguidos, e depois lhe beijava longamente, movendo o rosto vez após vez. Levantaram-se, caminharam pelo terraço, chegando até a grade que dava para a rua. De pé, continuaram se beijando. Diziam-se coisas suaves, contavam casos, expunham preferências. De mãos dadas, andaram até a outra extremidade. Beijavam-se, abraçados, quando um homem de quarenta anos apareceu.

  – Fábia! Vamos embora!

  – É o meu pai – disse Fabinha, um pouco envergonhada. – Eu tenho que ir. Tchau!

  Plínio permaneceu ali por um momento. Ergueu a meia altura o braço direito e o balançou, de punho cerrado.

Por: Edu Café

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