30 de novembro de 2014

Texto: Um poço para sua beleza

  Ela quer desvelar sua alma à realidade etérea, sutil, no limite de qualquer substância; plantar, umedecendo a terra com sua fatia mais densa (água, de tão transparente, invisível), no fundo da distância exata, falando à semente como se aborda um infante, ondulando cantigas de embalar e seduzir, com a paciência deleitosa do lavrador temperado nos ciclos de noite e dia, impregnando cada palavra com a discreta força de um recomeço tingido de luta, conduzindo-se à dura beleza conquistada em meio a vacilos (ah, o tempo presto cobra o justo pedágio); ela quer se encontrar e verter o seu mais íntimo através do canal mais claro, que, rebelde a suas esperas, se faz opaco e rugoso; o poço em que se dobra a sua torrente, numa cachoeira a reluzir nuas verdades, não lhe parece acolher com a segurança de um chão que sustente e floresça, algas estranhas moldando-se em pedras rasas, ameaçando o equilíbrio de mergulhos parecendo interditos como escorregadias intempéries; as águas valentes caem, no entanto, o que era escasso transmudando em profundezas, plenitude de vida submersa que ela procurava quase às cegas, insciente da maravilha inscrita em suas próprias premonições; manancial abundante e vivo, entre curvas de troncos e raízes retomando a forma potente de um regato, renovado perenemente nas fontes da bela e sublime imagem; ela encontra o seu traço, descendo a colina sob as sombras de árvores altas e frondosas, ela escolhe enfim o seu poço, num mergulho se despe em delicadeza que a envolve na inesperada entrega.

Por: Edu Café

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Dê sua opinião sobre o assunto discutido acima :D

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Copyright © 2015 | Design e Código: Natana Duarte - Colecionando Livros | Uso pessoal