10 de agosto de 2014

Resenha do Livro: O Último Judeu


  O livro O Último Judeu foi escrito pelo jornalista americano Noah Gordon, e publicado em meados de 2000.

  O livro é narrado em uma das épocas mais terríveis da história da humanidade, a época da Contrarreforma, ou simplesmente, Inquisição. Sei que o conceito de Holocausto se aplica para a morte dos 6 milhões de Judeus que perderam a vida durante a Segunda Guerra Mundial, mas acho que essa seria a palavra perfeita para descrever o que aconteceu não só com os Judeus, mas também com os Muçulmanos e com qualquer outra pessoa não ligada à Religião Católica na Europa durante a Inquisição, que começou no fim do século XV e matou todo não católico.


   Antes de tudo, esse livro é uma aula de História para aqueles que querem se aprofundar nesse assunto. É uma magnífica aula para se ter noção de como eram feitas as matanças, de como os não cristãos sobreviviam - se é que sobreviviam -, e de como era o contexto social da época também. Por exemplo, foi através dele que eu soube que a cerimônia de casamento de Isabel de Castela, 18, com Fernão de Aragão, 17, foi clandestina. Clandestina porque desafiou o rei Henrique IV de Castela. Ele queria que a meia-irmã de Isabel se casasse com o rei Afonso de Portugal. Para quem não sabe, Henrique IV não tinha filhos, por isso era chamado de Henrique, o Impotente.  Existiam boatos de que ele tinha uma filha ilegítima, mas, quando ele tentou nomeá-la como herdeira, irrompeu uma guerra civil. Todos deixaram de apoiá-lo, principalmente os nobres. Quando Henrique morreu em 1474, Isabel se proclamou, com êxito, rainha de Castela. Em 1479, o rei João II de Aragão morreu, deixando o trono para seu filho, marido de Isabel de Castela, Fernão. Foi aí que ambos que se juntaram para repelir as invasões de Portugal e França. Quando enfim conseguiram o triunfo, se concentraram na guerra contra os mouros, e adivinhem? Foram eles que conseguiram vencer os mouros, que estavam tentando dominar a Ibéria desde 711 d.C.

  Foi nessa época que houve a Reforma Protestante e, consequentemente, a Contrarreforma alguns anos depois. A Contrarreforma era resumidamente isso: matar todo não católico, ou seja, herege.

  É nesse contexto que Noah Gordon começa a narrar O Último Judeu. A história começa com o estupro e a morte do pequeno Judeu Méir Toledano, filho do ourives Helkias Toledano e irmão do personagem principal da história, Yonah Toledano. A morte ocorreu em 1489, ano em que a Inquisição já estava em processo. Podemos imaginar, portanto, que a causa da morte seja o fato de o pequeno Méir ser Judeu. A Inquisição atingiu, não sei se primeiramente, mas de uma maneira mais forte, na Espanha. Digo isso porque enquanto os Judeus, Muçulmanos e outros eram mortos sem dó nem piedade na Espanha, Portugal aceitava que os não cristãos fossem para suas terras, desde que pagassem um preço e ficassem até seis meses no lugar. 

  Depois da morte de seu filho, Helkias entende que deveria fugir de Toledo, fugir da Espanha, e é a partir daquele momento que ele decide juntar dinheiro e fugir com seu outro filho, Yonah, e seu irmão, Aron. Em 1492, com a Inquisição já na cola de seus pés e mesmo com pouco dinheiro, a família Toledano decide fugir. Vale dizer que nessa época, muitos não cristãos se batizaram para fugir da Inquisição. Esses eram chamados de cristãos-novos. O que acontecia, porém, é que às vezes, até os cristãos-novos eram inquiridos, seja por desconfiança da Igreja Católica ou porque eles ainda semeavam o culto de suas antigas religiões. De qualquer forma, como eu ia dizendo, um dia antes da data marcada para a família Toledano fugir, eles ainda não eram cristãos-novos, ou seja, eram Judeus "por completo". Foi nessa noite que o irmão mais novo de Yonah resolveu dormir fora de casa, e foi também nessa noite que os Inquisidores resolveram invadir a casa de Helkias Toledano.

  Acreditem, não vou fazer o livro perder a graça pelo que vou dizer, mesmo porque tudo isso acontece no início do livro, mas Helkias Toledano consegue, através de sua morte, salvar seu filho Yonah. Até aquele momento, Yonah já tinha perdido sua mãe e um irmão. Imaginem como seria perder também um pai com 13 anos de idade. Imaginem agora ser um Judeu e se ver sozinho em um mundo de perigo. O que aconteceu depois da invasão de sua casa foi que Yonah, depois de ir à casa de seu tio e ver que ele estava se tornando um cristão-novo, resolveu fugir, permanecendo um fiel Judeu.

  É a partir daí que uma nova história começa. Uma história de aventura, uma epopeia de um jovem de 13 anos que percorre toda a Espanha, fugindo da Inquisição, mantendo o Judaísmo em seu coração e vivendo sua própria vida, longe da família - se é que restava alguém que ele realmente amasse. Esse é mais um livro do Noah Gordon em que História, Religião, Romance e Aventura estão ligados. É uma história magnífica, de um garoto que ao longo de sua adolescência teve que se manter vivo de qualquer maneira, seja sendo pastor e fugindo da Inquisição, seja sendo marinheiro e fugindo da Inquisição, ou qualquer outra coisa que ele foi, mas sempre deixando de ser para fugir da Inquisição. Ele se autonomeia como O Último Judeu, porque, mesmo existindo inúmeros cristãos-novos que eram Judeus, ele era o único que nunca tinha se batizado.

  Eu não me arrependo nem por um segundo de ter lido esse romance. Acho que além de ser uma história muito bem trabalhada e escrita, é uma nova forma de conhecimento, e para ser sincero, eu nunca tive muita paciência para aprender História lendo livros especificamente de História. Eu sempre aprendi Históriaa matéria lendo romances históricos. Eu amo livros que tratam disso. Foi assim com O Físico e Xamã, também de Noah Gordon. Foi assim com A Menina Que Roubava Livros de Markuz Zusak, foi assim com O Enigma do Oito de Katherine Neville, e com tantos outros... Acho que é uma maneira linda de se aprender tudo que aconteceu no mundo antes de estarmos aqui. É uma maneira de saber melhor e entender a história,e também o porquê de tudo ser como é. Querendo ou não, a História não é só coisa do passado, pois é através do passado que aprendemos a lógica do presente, e é através da lógica do presente que podemos tentar entender a improbabilidade do futuro.

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