13 de junho de 2014

Conto: Uma Carta


  Eles são todos tão vazios. Acho que não entendem. Não entendem, sentado em suas cadeiras de que valem mais do que a minha casa, observando sua tapeçaria que poderia alimentar uma cidade inteira, não entendem um milhão de coisas. Eu, que sou só uma criança, como minha mãe vive me lembrando, acho que já sei mais que eles. Eles não sabem, entende. Nem sei como deveriam, eu vi onde eles nascem, vi o que eles comem, e é absurdo. Absurdo que eles tenham tanta coisa e a gente nada. Absurdo como eles têm aquele brilho no olhar, vendo todas aquelas armas e bombas, enquanto o brilho no olhar da minha mãe é ver meu pai tocando gaita pra nos distrair da fome. Sabe o que é isso? Apesar disso, eu sou feliz, eu sou feliz porque o sol queima na minha pele. Eu sou feliz porque eu respiro, e porque eu acordo todos os dias numa cama perto dos meus irmãos, e todos eles estão respirando também. Sou feliz porque posso ir pra escola, posso abraçar minha mãe, posso jogar futebol com meu pai. E eles são felizes por guerras, por ver gente morrendo. Por assistir bombas e mais bombas, e fogo e fumaça e gritaria. Como é que alguém consegue ser feliz assim? É isso que eu não entendo, é isso que os tornam tão cheios de nada, tão completamente vazios de humanidade. Tão ignorantes, com suas fardas bem passadas e suas máscaras de calma. Chutando crianças pelas ruas como se não fossem nada. E é isso que me consola a noite, saber que, mesmo que façam isso com a gente, que deixem tudo isso acontecer, eles estão errados. E um dia alguém vai dar um peteleco na cabeça deles e gritar "O que você pensa que tá fazendo?" Como minha mãe faz quando eu me sujo de lama. Por enquanto, só nos resta sentar e rezar para o Deus que nos dizem para acreditar.

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