30 de junho de 2014

Conto: Falta de Amor


  Eu li em algum lugar que amor é uma vida, que não acaba, não para, morre. Eu não sei. Vendo as coisas que eu vejo, eu sinceramente não sei mais. Sabe esses casais que não podem ter amigos do sexo oposto, que o outro parceiro enlouquece? Sabe esses casais velhos admitindo que se casaram pela gravidez? Sabe todas as coisas erradas que você já ouviu e teve que dizer ''é isso aí'', ''você está certo'', ''eu faria o mesmo''? Sabe? E eu não vim falar do amor, eu vim falar da falta dele. É disso que ninguém fala, é isso que ninguém tenta definir. Quando você está sozinho e não tem ninguém, nem a droga do seu amigo de infância ou sua mãe do lado, quando você fica calado e está gritando por dentro pra alguém te ouvir, e ninguém te ouve porque ninguém lê pensamentos. É quando eu era adolescente e ficava tão triste e não tinha onde me esconder, e me escondia em mim mesma, debaixo da casca do que eu era, sob o véu do que eu tentava ser, escondida como uma idiota, me sentindo uma pirada, explodindo por dentro, sentindo tantas coisas que eu nem sabia como aguentava, e então alguém reparava e oh, não, está tudo bem sim, eu não dormi direito. É acordar e não saber como se sente, e se levantar da cama com um buraco enorme gritando o que você era e o que você poderia ser, e era tão intenso que seus olhos ficavam vagos e você não entendia sua dor, não entendia o porquê. Por que se levantava tão cedo e por que dirigia um carro tão ruim, e por que não se mudava daquela droga de casa caindo aos pedaços, e por que seu emprego era tão idiota e você chegava em casa e via uma novela e se emocionava, e então você é uma idiota que vê novelas, e você deita na cama, vazia, com um sorriso vazio, ainda sem saber o que sentir e você sabe que é um nada, uma pálida imitação de todos que conhecia, tendo um bloqueio emocional tão forte que bloqueava ser você mesma, se é que você era alguma coisa. E você dormia sem saber como dormir, debaixo de cobertas geladas e uma lágrima congelada no rosto, uma lembrança tola de que, afinal, você ainda sentia alguma coisa, e só por isso, você era agradecida.

Por: Letícia Azevedo

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